Análise sobre a dor: “Sigo por ela”

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Eu vivo no caminho da morte.

A busco o tempo todo. 

Em músicas, estudos, relacionamentos, livros, pinturas, gravuras, falas, imagens, pensamentos. 

A morte me atrai, ela é o ápice da rebeldia, o extremo da vida. 

Sinto aproximar-me-á cada vez mais, a cada fase que a busco me aproximo.

Suspeito que quando chegá-la eu estarei tão surpresa quanto resoluta, satisfeita. 

E a morte me será tão prazerosa quanto o vento da vida, vento que senti ao sair da barriga da minha mãe, antes mesmo de me pegarem nas mãos, eu senti o vento, frio e rasgante e disse que aqui era menos confortável que lá; eu chorei, gritei, não pareciam se compadecer com a minha dor, talvez já tivessem passado por isto ou coisa pior e me cortaram o cordão do umbigo.

Apesar da dor, gostei, foi ali o primeiro momento que me deparei com essa sensação que carrega a palavra que lembra um gemido: “dor” e depois disso foi com ela que mais tive contato nesta vida, talvez a afeição seja oriunda da convivência. 

A dor me completa, ela faz parte de mim, do meu Ser, sem ela não teria vida. 

A vida seria isto?

Seja como for, nenhum ser vivente pode dizer com plenitude que nunca sentiu dor, seria uma das maiores calúnias ouvidas nessa terra, podem não ter gostado – estes eu sinceramente julgo esquisitos, muito aliais – 

Como não gostam da dor se seguem vivendo?

Me parece um dos casos graves da confusão. 

Insistem em falar mal da dor, dizem que não gostam, que a evitam, mas não há escapatória, se evita a dor, dói. 

Se não a evita ainda doerá e quando lhe perguntam se gostam da vida respondem sorridentemente amarelando que sim, mas oras, se não gosta da dor como gosta da vida? 

Como aprendeu a andar?

A se esquivar, a enfrentar, a amar, a escrever, a ler, a correr, a sonhar?

Ela faz parte de cada ato, de cada desenvolvimento da sua vida, a dor nos transforma, é também por isto que a almejo tanto e a quero tão bem, como não veem? 

Só avançamos com mais dor, se temes é porque sente ainda mais dor do que espera ter, tanto que quando a ultrapassa vê que era menor do que pensava, é a prova. 

Deixe a dor doer, corroer e abater tudo que a impede de prosseguir, aquilo que te amola provavelmente não é dor, deve ser tédio e a dor é contra o tédio, contra o remédio, contra a estagnação, se retorce de dor, ela é movimento, ela é vida. 

Deixe que ela tome conta do seu ser, percorra seu sangue e acelere seu coração, ou o faça mais lento bater, que de toda forma modifique, que seja veloz, prefiro lenta, assim acentua seu potencial, que seja lenta, prefiro veloz, assim acentua a intensidade, que seja continua, prefiro esporádica, assim além da dor, tem a surpresa que é outra espécie de dor, ela tem muitas espécies e facetas, ela é múltipla e completa, que seja esporádica, prefiro continua, assim nunca deixarei de sentir, que seja rara, prefiro comum, assim compartilho com meio mundo e ofereço mais um pedacinho de dor a cada um, que seja comum, prefiro rara, assim a dor será exclusiva e unicamente minha.

Que tudo doa!

Sinal que foi bom!

Que sexo é feliz se sai intacto, sem um arranhãozinho no nariz?

Que pianista toca sem dolorosamente fadigar seus dedos e sua repetida mente? 

Que criança é feliz sem nunca ter ralado o joelho? 

Que adulto é consciente sem ter passado pela dor da reflexão e da constatação?


Para alguns a melhor parte do desamparo é o amparo, para mim o amparo é consequência da dor, quando a dor dói de arder o peito, isto é viver! 

E se é para isto que vim, é isto que vou fazer!

Sentir o prazer da tontura da vida! 

Nada mais triste que a despedida e nada mais belo, é belo porque sofremos. 

Sofremos por identificação, quanto mais bonito, mais triste se parece, mais nos parece, a beleza é resultado da dor. 

A dor carrega compreensão e a compreensão torna as coisas belas. 

Criamos maneiras de cultivar a dor e seguimos mentindo dizendo para nos mesmos e para o mundo todo que não há dor, justamente para senti-la mais, pois se a entregarmos páramos de senti-la.

Nascemos através dela, por ela e com ela e ela também nos levará. 

O que é a morte senão dor acentuada? 

Eu sou daquelas que lutam pela vida, é por isto que não luto contra a dor.

Sobre a autora

Avatar de carolinacalil

Uma estudiosa da vida. Professora e pesquisadora formada em Filosofia, coaching em relacionamentos, mãe. Uma apaixonada pela natureza e pela beleza das singularidades do Universo. Taróloga, terapeuta holística e viajeira das ideias e dos sítios que impelem a amplitude do seu Ser. Brasileira que hoje vive em Portugal.

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