Quem são as jovens meninas adoradas como deusas no Nepal?

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Por Olívia Máximo

Nepal

As Deusas Vivas, conhecidas como Kumari, são jovens meninas escolhidas de famílias influentes do Nepal e consideradas a encarnação terrena da deusa Taleju. Mas quem elas são realmente?

“Uma sociedade que acredita que a divindade pode residir dentro de uma criança sustenta um conceito bonito, mas também assume a responsabilidade de garantir que a criança que representa esse símbolo religioso seja devidamente cuidada.”

Entre a Índia e o Tibete, a pequena nação do Nepal abriga culturas milenares que permanecem vibrantes na sociedade moderna. Da impressionante arquitetura do povo Newar ao ritmo paciente da vida cotidiana e à profunda hospitalidade local, o que mais me marcou foi o rosto de uma jovem menina, uma deusa, na verdade, com um olhar distante e pesado.

O Pacto Entre um Rei e uma Deusa

A tradição das deusas Kumari no Nepal remonta ao século XVII, durante o governo da dinastia Malla no Vale de Catmandu. Segundo a lenda popular, o rei Jaya Prakash Malla costumava jogar tripasa (um jogo de dados) em encontros secretos com a divindade protetora Taleju. Durante um desses encontros, o monarca cometeu a falta de respeito de olhar para a deusa com desejo carnal, provocando sua ira. A deusa desapareceu, jurando que nunca mais retornaria em sua forma celestial.

Diante do arrependimento e do desespero do rei, Taleju cedeu parcialmente. Ela declarou que só voltaria para manifestar sua presença e conceder proteção ao reino por meio do corpo de uma criança pré púbere escolhida entre a comunidade Newar.

Para restaurar esse vínculo sagrado com a protetora divina, foi estabelecido um rigoroso processo de seleção, concentrado em meninas dos clãs Shakya e Bajracharya. A candidata deveria apresentar uma pureza física impecável, representada pelas “32 virtudes humanas” (Laxanas), como a cor dos olhos, o formato dos dentes e a postura, além de uma estabilidade emocional inabalável durante testes ritualísticos realizados no escuro, com cabeças de animais sacrificados.

Uma vez escolhida, a jovem menina incorporava a energia vital da deusa Taleju até seu primeiro ciclo menstrual ou até sofrer uma lesão que provocasse perda de sangue. Nesse momento, o espírito divino deixaria seu corpo, dando início à busca por uma nova sucessora para dar continuidade à tradição.

Aryatara Shakya, atualmente a principal Kumari Real, foi escolhida em setembro de 2025, aos 2 anos e 8 meses de idade. A jovem do clã Shakya passou por um rigoroso processo de seleção antes de se mudar para o templo palácio Kumari Ghar. Ali, leva uma vida reclusa, na qual seus pés não podem tocar o chão fora do templo, saindo apenas em ocasiões festivas, em palanquins, e recebendo aulas particulares para sua educação até chegar à puberdade e retornar à vida civil.

Uma Cidade Projetada como uma Mandala

Sob uma fina camada de névoa, a leste de Catmandu, encontra-se a cidade de Bhaktapur, um dos maiores enigmas do Nepal. Projetada de acordo com a arquitetura tântrica tradicional do Vale de Catmandu, a cidade histórica de Bhaktapur foi concebida pelos Newar como uma mandala sagrada, na qual os espaços urbanos e os templos de pedra são dispostos em círculos concêntricos para reproduzir a ordem do universo.

Dentro dessa estrutura espiritual, deusas guardiãs circundam a periferia para proteger a comunidade dos males externos, enquanto o núcleo da cidade necessita de um ponto central de energia viva para manter o equilíbrio cósmico, papel desempenhado pela Kumari local, que atua como o centro espiritual dinâmico dessa complexa geometria sagrada.

É aqui que vive uma deusa com uma rotina diferente daquela da capital. Luniva Bajracharya, nomeada em 2021, aos três anos de idade, é a atual Kumari de Bhaktapur. Pertencente ao clã Bajracharya, ela se diferencia da Kumari de Catmandu por levar uma vida menos reclusa: mora com a própria família, frequenta uma escola regular e interage abertamente com outras crianças. Sua rotina é dividida entre uma infância comum e os deveres religiosos locais, vestindo trajes sagrados para abençoar os devotos durante os principais festivais até chegar à puberdade.

Essa tradição está na interseção entre o budismo Newar, o hinduísmo, as culturas indígenas de Catmandu e a história política do Nepal. Existem várias deusas espalhadas por diferentes cidades, sendo a mais proeminente a de Catmandu.

A Perspectiva das Novas Gerações

No Vale de Catmandu, a Kumari continua sendo uma parte integral do tecido cultural local. Ao refletir sobre o papel da deusa na sociedade nepalesa, a jovem moradora local Sudika Koirala explica:

“Ela não é algo que existe apenas em museus ou livros de história. Continua sendo uma parte ativa da cultura religiosa viva e é celebrada regularmente. O exemplo mais proeminente é o Indra Jatra, especialmente o Kumari Jatra, durante o qual a Kumari é carregada pela cidade antiga em uma carruagem ritual. Milhares de devotos se reúnem para assistir à procissão e receber sua bênção. Mesmo aqueles que talvez não participem ativamente de todas as cerimônias religiosas tradicionais do vale comparecem como parte da comunidade para observar.”

A tensão entre o tempo e as novas formas de expressão da cultura é evidente entre as gerações mais jovens. Sudika observa:

“Não acredito que as gerações mais jovens tenham rejeitado a tradição, pois vemos uma participação muito entusiasmada dos jovens na maioria das tarefas e dos rituais, incluindo puxar a carruagem, dançar e tocar instrumentos musicais durante o jatra. Em vez disso, nossa compreensão sobre ela está evoluindo. As gerações mais velhas frequentemente vivenciaram a tradição como um aspecto aceito da vida religiosa cotidiana. Os mais jovens tendem a fazer perguntas sobre como a tradição funciona, as razões por trás de determinadas regras, o que acontece com a Kumari depois de sua aposentadoria e como isso afeta sua educação e sua vida pessoal.”

Ela continua, destacando a influência das redes sociais e das mudanças sociais dentro da comunidade:

“As redes sociais também transformaram isso significativamente. Os jovens agora podem participar de discussões sobre a Kumari sob perspectivas feministas, dos direitos das crianças, religiosas e antropológicas. Tradicionalmente, a Kumari não podia se casar, mas isso mudou nos últimos anos, e muitas hoje são casadas e vivem vidas normais. Acredito que muitos jovens Newar podem honrar a tradição e, ao mesmo tempo, questionar seu significado e sua praticidade.”

Quando a Deusa Volta a Ser Mortal

Testemunhar essa dinâmica de perto pode rapidamente se transformar em uma experiência emocional. Durante as intensas celebrações do Ano Novo nepalês, em 14 de abril, a jovem deusa muitas vezes parece carregar um olhar cansado. Embora seja adorada pelas multidões, ela continua sendo uma criança privada de uma infância comum, incapaz de correr livremente ou brincar com os amigos enquanto permanece sentada sobre o trono sagrado.

Ao chegar à primeira menstruação, essas meninas deixam o posto divino e são reintegradas à sociedade civil, uma transição que nem sempre é simples. A marca de ter sido uma deusa encarnada permanece profundamente presente na sociedade hindu e budista do Nepal, podendo, em alguns casos, levar a situações de bullying, isolamento ou atenção excessiva devido ao estigma persistente de seu passado sagrado.

Amparadas por uma pensão vitalícia do governo nepalês e enfrentando antigos mitos locais, como a superstição de que seus futuros maridos morreriam jovens, antigas Kumaris estão construindo seus próprios lugares no Nepal moderno.

Antigas deusas como Matina Shakya e Samita Bajracharya frequentaram escolas e universidades regulares, obtendo diplomas em áreas como Tecnologia da Informação e Finanças. Hoje, equilibram vidas seculares comuns, trabalhando, casando-se e utilizando as redes sociais, com o respeito e a memória do papel sagrado que um dia ocuparam na história de seu país.

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Sobre a autora

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Amo me comunicar e me conectar com pessoas. Amo viajar, ler e escrever. Sou arqueóloga, mineira e mochileira de 24 anos. Saí do Brasil aos 20 anos para estudar e a partir daí comecei a aprender a viajar de forma desapegada! Vamos conhecer este mundo juntos?

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